
Memorial de Aires
Como ler Machado de Assis (1839-1908), o grande escritor brasileiro, autor de uma obra tão rica quanto múltipla, que tanto disse sobre o Brasil e sobre a natureza humana? Esta nova edição de Memorial de Aires, romance publicado em 1908 – ano da morte do escritor –, tem o objetivo de auxiliar o leitor a penetrar no mundo e a conhecer a mente de Machado de Assis. Revista e cotejada com a edição crítica do Instituto Nacional do Livro estabelecida pela Comissão Machado de Assis, traz, além de notas abundantes e de fácil compreensão, um farto material que possibilita um melhor entendimento sobre o autor e sua obra: uma biografia, uma cronologia, um panorama cultural do Rio de Janeiro e um mapa da época. Quando começou a escrever o Memorial, Machado perdera Carolina, sua esposa de toda a vida, havia quatro anos. Esse sentimento está muito presente no livro, misto de reflexão sobre a velhice, reconciliação com a vida e retrato das profundas mudanças de um país que tentava se libertar das amarras da escravidão. Nesta obra, Machado dá voz ao Conselheiro Aires, diplomata viúvo que está de volta ao Brasil depois de muitos anos. Ele começa um diário no qual, com um olhar entre o nativo e o estrangeiro, esmiúça as dúvidas de todo um povo em relação ao seu futuro.
Memorial de Aires, de Machado de Assis
Em Memorial de Aires, Machado de Assis troca a eloquência dos grandes embates pela discrição de um diário. A escolha não é pequena: ao entregar a narração ao Conselheiro Aires, diplomata viúvo de volta ao Brasil depois de muitos anos, o romance transforma a observação cotidiana em matéria de dúvida, melancolia e ironia.
Publicado em 1908, o livro é o último romance de Machado — escritor carioca que viveu entre 1839 e 1908 e construiu uma obra decisiva para a literatura brasileira. (academia.org.br) Mas não se deve procurar aqui uma despedida solene ou uma síntese grandiosa de tudo o que ele escreveu. Memorial de Aires parece preferir os movimentos menores: uma conversa, uma impressão passageira, a maneira como alguém se aproxima ou se afasta dos outros. É justamente nessa escala íntima que o romance encontra sua força.
Aires é um narrador especialmente interessante porque carrega uma posição ambígua. Ele é brasileiro, mas olha o país com a distância de quem passou muito tempo fora; é participante dos acontecimentos, mas conserva o hábito de analisá-los com reserva. Essa perspectiva permite que Machado examine um Brasil em transformação sem recorrer ao discurso direto ou à tese explícita. As questões sobre o futuro nacional, as marcas da escravidão e as mudanças sociais aparecem filtradas por um homem acostumado a ponderar antes de concluir.
Essa contenção pode surpreender leitores que chegam esperando o sarcasmo mais agressivo de Memórias Póstumas de Brás Cubas ou as armadilhas narrativas de Dom Casmurro. Aqui, a ironia continua viva, porém mais baixa, quase confidencial. Machado parece interessado menos em desmascarar seus personagens do que em acompanhar suas hesitações. O resultado é um romance de atmosfera: a velhice, a viuvez, a amizade e o desejo de recomeço ganham peso não por explosões dramáticas, mas pelo acúmulo de pequenos gestos e silêncios.
A sinopse desta edição chama atenção, com razão, para a perda de Carolina de Aguiar, esposa de Machado, ocorrida em 1904. Sem reduzir o livro a uma chave biográfica, é difícil ignorar como a experiência do luto ressoa em suas reflexões sobre a passagem do tempo e a possibilidade de reconciliação com a vida. A própria Biblioteca Nacional registra que Machado começou o romance em 1907, após esse período de abalo pessoal. (antigo.bn.gov.br)
As notas, a cronologia e o panorama do Rio de Janeiro prometidos pela edição podem ser aliados valiosos, sobretudo para quem lê Machado pela primeira vez ou deseja situar melhor o romance em seu tempo. Ainda assim, o principal fascínio de Memorial de Aires está no que dispensa explicação externa: a prosa precisa, a inteligência que nunca se exibe por completo e a delicadeza de encarar o fim sem abandonar a curiosidade pelo mundo.
Recomendo Memorial de Aires a leitores dispostos a apreciar um Machado de Assis mais sereno, mas ainda profundamente atento às contradições humanas.