Capa do livro Na pior em Paris e Londres

Na pior em Paris e Londres

George Orwell

Principis241 páginas

    Publicado pela primeira vez em 1933, este é um livro de memórias fictício, mas também um pouco autobiográfico que trata da pobreza nas duas cidades. A primeira parte é um relato de como um escritor vivia em situação de quase miséria em Paris e a experiência de trabalho temporário em cozinhas de restaurantes. A segunda parte trata-se de um diário de viagem dentro e ao redor de Londres sob a perspectiva de um desocupado, com descrições dos tipos de acomodação em albergues disponíveis e de alguns dos personagens encontrados vivendo à margem de tudo.

    Na pior em Paris e Londres, de George Orwell

    Em Na pior em Paris e Londres, a pobreza não aparece como pano de fundo moral nem como simples cenário de sofrimento: ela organiza o tempo, o corpo, os deslocamentos e até a possibilidade de alguém ser visto como gente. Dividido entre a experiência de trabalho precário em Paris e a vida errante nos arredores de Londres, o livro encara a miséria por dentro, com uma atenção incômoda às regras não escritas da sobrevivência.

    Publicado originalmente em 1933, este foi o primeiro livro longo de George Orwell — autor inglês que mais tarde se tornaria mundialmente conhecido por A Revolução dos Bichos e 1984. Aqui, porém, seu olhar ainda está menos voltado para as arquiteturas do poder político e mais para a brutalidade cotidiana que sustenta as desigualdades sociais. (orwellfoundation.com)

    A primeira parte, ambientada em Paris, encontra força no contraste sugerido pela própria sinopse: por trás dos restaurantes, há cozinhas onde o trabalho temporário e exaustivo consome os indivíduos. Orwell parece interessado não apenas em denunciar a precariedade, mas em revelar a engrenagem que permite que o conforto de uns dependa da invisibilidade de outros. É uma perspectiva que dá ao livro uma energia quase jornalística, embora a obra se apresente também como memória fictícia e carregue as marcas de uma narrativa construída.

    Já a passagem por Londres desloca o foco para os albergues, a circulação dos desocupados e os encontros com pessoas empurradas para as margens. O que poderia se tornar apenas um catálogo de privações ganha densidade porque o livro, ao que a sinopse indica, se preocupa com os tipos humanos e com a experiência concreta de não ter estabilidade. Não é só a falta de dinheiro que está em questão, mas a perda de privacidade, de escolha e de pertencimento.

    Essa combinação de relato pessoal, observação social e elaboração literária é uma das qualidades mais instigantes de Na pior em Paris e Londres. Ao mesmo tempo, pede uma leitura atenta: Orwell não escreve de um lugar totalmente neutro. Sua voz interpreta, seleciona e organiza aquilo que vê. A dimensão autobiográfica não elimina a mediação do narrador; pelo contrário, torna mais interessante perguntar como a pobreza é observada, narrada e transformada em literatura.

    Também é um livro que pode soar duro, por vezes repetitivo em sua insistência sobre fome, cansaço e humilhação. Mas essa repetição parece fazer parte de seu efeito: a precariedade raramente oferece grandes reviravoltas; ela se impõe pela rotina, pela espera e pela necessidade de improvisar o próximo dia.

    Mais de nove décadas após sua publicação, a obra preserva um desconforto essencial ao tratar do trabalho invisível e da exclusão sem enfeitar a miséria. (orwellfoundation.com)

    Recomendo para leitores interessados em clássicos sociais, narrativas de não ficção híbrida e no Orwell anterior às suas distopias mais famosas.