Capa do livro O azarão

O azarão

Markus Zusak

Editora Bertrand Brasil124 páginas

    Do autor de A menina que roubava livros. Um romance de formação, escrito em forma de memórias, o livro apresenta a história de Cameron Wolfe, um garoto de 15 anos que vive em conflito com a família. Ele trabalha como encanador junto com seu pai, e sua mãe está sempre brigando com os filhos. Todos moram na mesma casa pequena: Steve é o irmão mais velho e mais bem-sucedido; Sarah é a segunda, e está sempre dando uns amassos com o namorado; Rube é o terceiro e o mais próximo de Cameron. Os dois, além de boxeadores amadores, vivem armando esquemas para roubar lojas. Contudo, os planos nunca saem do papel. Uma história sobre a vida e sobre as lições que podem ser tiradas dela.

    O azarão, de Markus Zusak

    Cameron Wolfe tem 15 anos, trabalha como encanador ao lado do pai, treina boxe com o irmão e tenta sobreviver ao barulho constante de uma casa pequena demais para tantos conflitos. Em O azarão, Markus Zusak escolhe uma matéria-prima aparentemente cotidiana — família, adolescência, dinheiro curto, brigas e ambições mal definidas — para construir um romance de formação de tom íntimo e direto.

    Publicado originalmente em 1999, este foi o primeiro romance de Zusak, autor australiano nascido em Sydney e posteriormente conhecido mundialmente por A menina que roubava livros. O azarão abre também a sequência centrada nos irmãos Wolfe, continuada por outros dois livros. (markuszusak.com)

    A forma de memórias é um acerto promissor para uma história como esta. Ao colocar Cameron no centro da narração, o livro parece interessado menos em grandes reviravoltas do que na maneira como um adolescente interpreta o mundo enquanto ainda tenta entender a própria posição dentro dele. Cameron é o “azarão” não necessariamente porque enfrenta um único inimigo extraordinário, mas porque se sente menor diante das expectativas, dos irmãos, das dificuldades da família e de tudo o que ainda não sabe nomear.

    A dinâmica entre os Wolfe sustenta boa parte do interesse. Steve, o irmão mais velho e bem-sucedido; Sarah, vivendo seus próprios impulsos; Rube, parceiro de Cameron no boxe e em planos de pequenos crimes que não chegam a se concretizar; e os pais, presos a tensões domésticas recorrentes: todos ajudam a desenhar um lar em que afeto e irritação parecem coexistir sem cerimônia. Não há, pela sinopse, sinal de uma família idealizada — e essa falta de polimento é justamente uma qualidade. O livro parece encontrar humanidade nos atritos, nas provocações e nas lealdades que sobrevivem mesmo quando ninguém sabe demonstrá-las com delicadeza.

    O boxe acrescenta uma imagem forte ao romance. Para Cameron e Rube, treinar não é apenas um passatempo: sugere uma tentativa de medir forças com o mundo, de provar resistência e talvez de encontrar um idioma para sentimentos que não cabem numa conversa em família. Zusak voltaria a trabalhar, em obras posteriores, com personagens jovens em busca de valor e pertencimento; aqui, é possível enxergar uma versão mais crua e concentrada desse interesse. (chipublib.org)

    Também vale ajustar a expectativa de quem chega ao livro por A menina que roubava livros. O azarão não carrega, pela própria premissa, a dimensão histórica nem a arquitetura narrativa mais ambiciosa do título mais famoso de Zusak. Sua força está em outra escala: a do quarto apertado, do trabalho compartilhado entre pai e filho, da rivalidade fraterna e do jovem que transforma confusão em relato.

    Recomendo O azarão para leitores que procuram um romance juvenil honesto, de conflitos familiares palpáveis e com um protagonista aprendendo a ocupar o próprio espaço.